No nordeste do Brasil há um folguedo tradicional do tempo do Natal que encanta a todos que o assistem ou a ele estão ligados. É o PASTORIL, singela manifestação originária do chamado “teatro religioso popular”, comum na Espanha e em Portugal, que recria a louvação feita pelos pastores na noite em que Jesus nasceu, fazendo isso em canções de anônima criação, em contendas entre figuras de destaque de cada pastoril, de danças, de escolha e coroação de “rainhas”, defensoras das cores AZUL ou ENCARNADO, como tema de peleja.
Para a maioria dos estudiosos da cultura popular esse folguedo característico do período natalino tem séculos de tradição e é representado desde a preparação do Natal, até as festas de Reis, com alegorias, bailados e canções, todas louvando o Menino Jesus que chega e que atrai os pastores na noite que se adianta, como um teatro popular, de cadência rítmica muito semelhante a canções portuguesas,
Dos Pastoris religiosos, feitos nas igrejas, próximos ao Presépio armado em lugar de destaque, o costume ganhou as ruas, “profanizou-se”, co-existindo, nos dias atuais, um pastoril de gosto popular mais fiel à veneração do Filho de Deus nascido, e um outro, de caráter profano, galhofeiro e irreverente, com canções nada convincentes do ponto de vista religiosos. E existem seguidores para todas essas tendências.
Mesmo nos pastoris religiosos, percebe-se que, ainda que de gosto popular, alguns grupos pareceram sempre mais burgueses, com trajes luxuosos, cantando diante de Presépios (ou “Lapinhas”, como são chamados) e que são a representação estática do nascimento do Menino Jesus. Outros vestem-se até de papel crepon, na pobreza da sua roupa humilde...
Na sua composição, o PASTORIL tem, principalmente, PASTORINHAS, vestidas de AZUL ou de ENCARNADO (a cor “vermelha”), destacando-se no cortejo três dessas figuras:
a MESTRA, principal figura do "cordão" ENCARNADO;
a CONTRA-MESTRA, principal figura do "cordão" AZUL
e a DIANA, elemento agragador, dançando isolada entre os dois "cordões", vestida nas duas cores do Pastoril: o ENCARNADO e o AZUL.
Afora essas personagens principais, muitas outras assumem papéis especiais, como a CIGANA, o ANJO, a CAMPONESA, o PASTOR... Em tudo há a singeleza do fervor religioso e o anonimato ds "Jornadas", que são as canções feit
as só e para aquele momento de louvor.
O encantamento do PASTORIL atravessou gerações e chegou aos nossos dias, eternizado nos muitos dedicados guardadores dessa tradição, na fidelidade de escolas que continuaram a repetir toda esse costume natalino, nos grupos que foram se formando por aí afora e, mais recentemente, na feitura de um CD - "Pastoril" - pela pesquisadora e musicisita Dinara Pessoa, registrando 20 diferentes jornadas, imortalizando as poesias repetidas por adultos e crianças, CD este merecedor do "Prêmio Rodrigo de Melo Franco", a nível f ederal, pelo inusitado que representa, no universo da cultura popular.
Seria muito bom que tudo isso se perpetuasse... E que nós pudéssemos ouvir, pela vida afora, as doces e inesquecíveis jornadas de pastoril... Ah! como seria bom!